Monday, December 19, 2005

bla bla bloeimm bluoummm bum

Porque é o segundo desmaio como esse que presencio.
Porque o piloto tentou distrair a atenção dos passageiros falando qualquer merda ao microfone.
Porque tive mais uma idéia para narrar uma desesperança.
Porque é assim que minha esperança sabe denunciar.
Porque é como quando deixa de haver magia.
Porque o ritmo atual da alternância.
Porque se há algum médico a bordo, por favor contate a tripulação.
Porque avanços da medicina.
Porque um jovem austríaco de 20 anos me comentou tomando uma cervejinha que os experimentos médicos com pessoas vivas na época do nazismo trouxeram avanços que nos beneficiam incrivelmente hoje em dia.
Porque o médico e o monstro.
Porque oráculo e Shakespeare.
Porque Ricardo III.
Porque a tensão entre os corpos jovens.
Porque a velhice tateante e escanteada.
Porque a observação deprimente.
Porque a amizade brotando e versando sobre si mesma.
Porque Elisa.
Porque Itália.
Porque Brasil.
Porque o dinheiro lá não vale nada.
Porque a feroz luta entre o feliz poeta e o esfomeado.
Porque a sereia estraçalhada.
Porque aeroportos.
Porque Raymond Carver e os ecos do seu livro em torno.
Porque para a pergunta "A magia é voluntária?" ainda não se tem resposta.
Porque desde que nasce a pessoa já não é auto-suficiente.
Porque encontros interiores.
Porque é preciso ter força para agüentar a alternância entre aproximação e distanciamento da realidade.
Porque sonho de fuga é pesadelo quando se está acordado.
Porque o mundo de Clarice Lispector.
Porque a criação de um mundo.
Porque quem quiser nascer tem que destruir um mundo.
Porque o jornalismo.
Porque a ficção.
Porque a vida.
Porque a poesia.
Porque o amor.
Porque a luta do amor.
Porque a elevação do amor.
Porque a prisão dos homens pelos homens.
Porque as idas.
Porque as voltas.
Porque a prosa.
Porque a idéia diferente de distração e divertimento.
Porque as faltas sentidas.
Por não saber onde encontrar.
Por precisar.
Porque os conhecidos.
Porque as letras das músicas.
Porque as palavras.
Porque o silêncio.
Porque o amigo distante.
Porque a nova amiga.
Pelas satisfações momentâneas.
Porque a fugacidade.
Porque o dinheiro.
Porque o futuro.
Porque a construção.
Porque a venda nos olhos.
Porque o despertar.
Porque a dormência das engrenagens que movem o sistema.
Pelos interesses econômicos.
Pela família.
Porque as conciliações mundanas.
Porque a aterrissagem.
Porque o chão.
Porque a gravidade da vida.
E também porque.

Friday, December 16, 2005

Cimentação do violino na parede melódica

A real ri do sonho
O humor negro da real
Eu querendo ser real
Para que se riam de mim?
Sou o sonho sério

E é aquele riso vingativo
Aquele riso velhaco
Te acalma, neguinho
O riso que quer calmar
O meu sonho que sou

A real séria e real
O sonho estrangeiro em todas partes
E eu quando sonho nem sonho isso
Afasta os demônios de ti
O sonho é a real


Morte e vida à linha que divide

Tuesday, December 13, 2005

Epígrafes para um texto que decidi não publicar

"As pessoas não mudam da noite para o dia", H.M.

"A vida se conta em anos", C.L.

"¿Cuánto vive el hombre, por fin?
¿Vive mil años o uno sólo?
¿Vive una semana o varios siglos?
¿Por cuánto tiempo muere el hombre?
¿Qué quiere decir para siempre?", P.N.

"We could just walk away and hide our heads in the sand
We could just call it quits, only to start all over again
With somebody else", A.M.

Sunday, December 11, 2005

A carta dilúvio

O quebra-cabeças que nunca se termina de montar
E o prêmio por não poder montá-lo

O que fazer com o prêmio?
Fascinar com o além!

Um prêmio devia pedir união
Tudo isso encontrei numa carta dilúvio num balcão de bar

Onde uma mãe se enfurecia com um filho
Uma mãe que não era minha e um filho que não era meu

(Como poderá você morrer, Narciso, se você não tem uma mãe?)

Mãe Isis
Oração a tudo o que existe no agora

Horas para mim que não vejo o caminho marcado
Apenas o que vou cimentando com os ladrilhos amarelos que trago

Abro mão do que eu queria e continuo dizendo "quero"
Sem poder achar que já tenho demais

Dar é o ato que terminará de me convencer
- meu eu meu amor pedindo para sair

À chegada da liberdade tão exaltada
Que nada tem a ver com receber


(Perguntei àquela mãe sobre a carta dilúvio que havia encontrado
Ela disse que era uma carta perdida de algum baralho que passara por ali)

Wednesday, December 07, 2005

O homem que apareceu

O homem que apareceu
Ofereceu risos
E quis falar de si

Não te chamei
Não te chamaram
Mas tomo o café que sugeres

Entramos num lugar daqueles típicos
Televisão, fumaça, contemplação triste de ócio mal-aproveitado
Peço café com leite e torrada

O homem pergunta se eu jogo xadrez
E por que isso são versos?
Que merda é essa?!

Calma, traz um pouco daquela delicadeza
Que te pediu para versear
Nada de além do mais

O homem pergunta se eu jogo xadrez
Quero, me animo
Chegam o café e a torrada

Nada de além do mais uma ova
Nada de sentido além do óbvio, isso sim -
Eu queria jogar xadrez

Perguntei se teríamos tempo
Mais por não querer sacrificar minha liberdade de poder sair dali
Com quê se associa jogo de xadrez?

Jogamos
Café, leite, torrada, a televisão ligada
Ele ganhou e riu, só riu

Aquele riso me engatilhou na cara um sorriso
Gostando tanto de ter perdido no jogo
Saí à rua em paz com o amor

Nada de sentido além do óbvio
Este poema é só para disfarçar
A impossível alegorização do homem que apareceu

Sunday, December 04, 2005

A explicação assombrada

Vou contar aqui uma história onde o escritor não é capaz de avançar em enredo algum, porque ele se põe a desvendar as projeções que faz de si mesmo nas situações "ficcionais" que cria. Um escritor que não acredita em ficção, mas que se vê a si mesmo como uma cartola de dentro de onde tira mágicas cujos truques conhece muito bem... Um escritor analista do próprio leitor: quando este se identifica com alguma coisa que lê, quando sente que o livro está falando com ele, vem da mesma boca o desvelo do truque que o leitor nem sabia que dominava, e a mágica dele perde a graça, ele desilusiona porque se vê explicado, analisado e óbvio. E o desvelo dos próprios truques acaba por mostrar-se como uma diversão que não era a proposta inicial da arte, essa grande dama dos mistérios.

O leitor continua, curioso, fazendo-se cúmplice do escritor em devassar a dama, arrancar-lhe as vestes voaçantes. Ela reage num primeiro impulso de seu orgulho, mas vem uma bofetada e ela cala: ela é confiante o suficiente para resistir à humilhação advinda de covardia. O leitor já a essas alturas mais entusiasmado que o escritor, violando aquilo que ele mesmo tinha de velado e sensível (o sentimento nasce sem explicação), o leitor que já nem pode mais ser chamado de covarde, mas de masoquista, porque os tapas, os socos que dá são nele mesmo, na parte que ele agora xinga de tolice e sentimentalismo, porque ele acaba de esquecer como se faz para chamar isso de mistério.

Mas o escritor não esqueceu. O escritor vai escalarecendo ao leitor todos os seus truques (os truques dos dois, de mais, do mundo homem) até que não haja mais nenhuma mágica, até que o livro nas mãos do leitor seja um relato dele mesmo no divã que nunca visitou por preguiça, ou falta de paciência, ou de dinheiro, ou por medo, algum amor inconsciente a não conhecer-se de todo. E o leitor acha que o livro foi um dinheiro bem investido, e o escritor parece ter triunfado.

Mas à noite, em pesadelo, o escritor não dorme, assombrado pela imagem de uma mulher de quem ele não vê o rosto, coberto por um véu. Ele toca o véu e acorda sobressaltado antes de conseguir arrancá-lo.

Esta noite a dama visitará o leitor satisfeito.

Wednesday, November 30, 2005

Jornalismo no divã

E agora é hora de escrever, é hora de entregar-se à missão acreditada, é hora do concreto. Lidar com o concreto implica aceitar a independência que se impõe à força, mais concreta que o próprio corpo. O corpo é também subordinado à independência. Mas há a prisão. O corpo, que é concreto, que é também o concreto em si, o corpo também prende. Quando é percebida concretizada, a independência se transforma num cativeiro. E assim o coração vagabundo avança, como se tivesse que avançar. Mas o ter que avançar é apenas acreditado e imposto ao coração. O coração vagabundo é o mais despreparado e o único que pode tomar conta. O coração vagabundo está sempre sobrecarregado com a canseira de ter esperança. É ele que mantém acordado e dormido o homem. A missão do coração vagabundo não é apenas acreditada, é uma missão que o que a faz concreta é ser simplesmente também física, no sentido de imposição de lei da Física.

E estou tecendo um grande enredo, não se enganem, isso não tem nada de simples divagação. Isto que escrevo tem personagens, cenário, tempo e espaço. A História se impõe a tudo, e mais: a História é intrínseca a tudo. Por isso a gente também às vezes baixa a cabeça e vira jornalista. Por isso é tão importante olhar para baixo e pensar sobre as correntes que nos prendem os pés à terra (as sombras na parede, etc.), porque pensar sobre elas é pensar sobre o que se pode fazer para libertar-se para olhar para cima. As linhas do jornalismo são tão pretensiosas! Querem que se possa jurar que só olham para as correntes. E se pretendem magnânimas: querem tomar conta, querem ser levadas muito a sério pelas provas que colhem e oferecem e sua ambição declarada e nem sempre sincera é ser responsável pela libertação de cada indivíduo de suas correntes individuais. E já me entra uma vontade de me distrair, porque estou sendo muito sério, estou me esforçando para tratar seriamente da coisa sobre a qual escrevo, que é seríssima, quase tão séria quanto a abstração.

Distrair-se é andar faceiro arrastando as correntes, como se elas não existissem. E como se também não existisse o céu: distrair-se é não olhar para baixo nem para cima: é olhar para a frente, é deixar correr o rio - e se pode fazê-lo olhando para baixo ou olhando para cima. Pode-se olhar para a frente olhando para baixo ou olhando para cima, mas vice-versa já não. Olhar para a frente pode ser feito com missão ou sem missão (conheço um pouco os meus outros), acreditando ou sem acreditar - só uma coisa tão séria quanto olhar para a frente é capaz de dar conta de todas as possibilidades. E não há nenhuma intenção de metáfora aqui: estou falando em olhar para a frente como se olha aimediatez do próprio reflexo no espelho, e nunca esse meu dizer "olhar para a frente" tem alguma coisa a ver com futuro ou com meta. Conheço uma outra palavra para dizer futuro: projeção. E olhar para a frente não tem nada, mas nada - envergonhe-se por favor quem tenha pensado o contrário -, olhar para a frente não tem nada a ver com futuro nem com meta.

Percebo que estou me distraindo, distraindo olhando para cima, e subitamente algo me pediu para que olhar para baixo também pudesse ser aceito por mim como uma distração. O que me leva a pensar que nunca pensei em ser jornalista por distração. Distração, num ofício, é fazer o que se gosta. E se é certo que somos impelidos a fazer sempre o que nos dá prazer e fugir da dor, então é também verdade que sou um apaixonado do jornalismo. (Às vezes nem eu me entendo, quando se está distraído é difícil entender as coisas). Tão apaixonado e compreensivo com o jornalismo que até consigo estabelecê-lo com o que ele faz questão de sempre negar - o jornalismo, esse tão personagem, esse tão sujeito ao próprio inconsciente como qualquer existência que é concebida, quando idealizada, por nós, os incutidores da História nas coisas: estabeleço o jornalismo a partir da parcialidade que ele faz questão de conscientemente negar (ah, mas ele estudou teatro, não sou tão bobo assim como pareço); parcialidade no sentido das suas duas metades. As duas metades de que ele é composto e a metade daquilo que ele é uma das metades (i.g.: em cima e embaixo são metades, etc.). E assim em pares que vão formando coisas tão únicas e sólidas como olhar para a frente, simplesmente.